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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pra quem quiser ver - Juliana Sfair

Sentada aqui, olhando os telhados molhados, o céu escuro; eu penso na melhor maneira de fugir do querer. Este querer egoísta, que exige você nos dias longos, nas noites rápidas e nas esperas de não sei o quê.
Essas esperas que nós costumamos criar e nutrir para compensar o tédio que ás vezes pula na frente da tela em tardes solitárias.
E eu comecei a ver histórias de amor, romantizar palavras, desejar casamento na praia e essa tal felicidade.
Enchi minhas mãos de conchinhas, caminhei nas pedras e deixei as brisas que vinham do oceano tocar em meu corpo. Cheguei à cabana solitária, que fica na praia mais deserta.
Cabana essa que representa meus profundos medos e desejos. Aquela necessidade da solidão para refletir, para encontrar a paz.
Eu ando por todos os lugares com você, suspirando e idealizando passeios, ilhas, frio, colo e lareiras. Mas fazer parte de mim é outra coisa. Uma questão muito mal resolvida por todos esses anos.
Te aceito envolvente, percorrendo mundos comigo, transitando entre a realidade e a ficção de amores jovens entregues ao tempo. Quero sua atenção e elogios, nas salas, nos quartos e nas festas que acontecem na cobertura.
Brindo tudo o que nos une; essa sua consciência dos atos, seu olhar assustado nas minhas alegrias repentinas e melancolias passageiras.
Preciso de uma vez por todas, conquistar um comportamento equilibrado nas emoções, mas escorrego nas minhas intensidades e não permito sufocar minhas verdades que escapam em palavras e gestos espontâneos.
Esses rompantes que insistem em me detonar, cada vez eu tento ser igual às outras pessoas, tudo me desaponta e explode.
Os sentimentos gritam aqui, fazem carnaval, saem na comissão de frente.
Sou assim; de frente. Nada de surpresas como alegorias de isopor gigantescas que se desmancham com a chuva.
Todas as alas carregam nas cores um pouco de mim e inúmeras pessoas desfilam comigo por aí.
Represento este carnaval todo: muita bagunça frustrações, fogos, batuques, ansiedades e histórias.
Madrinha da bateria; eu determino o ritmo e mantenho os pés firmes sobre os saltos.
Há muitos anos venho ganhando nota 10 em harmonia e fantasia. E nota zero em romances perfeitos e mulher tom pastel.
É por isso que volto para cabaninha á beira-mar, no final de cada desfile. Desfilo para aguçar desejos e olhares; aplausos e vaias.
Devoro com gosto limites e tabus e deixo rastros de lantejoulas e plumas, mas não revelo o caminho correto pelo qual se chega á cabana. Lá ninguém entra sem ser convidado.
Carnaval é na avenida pra quem quiser ver; minha essência é confidencial.


Juliana Sfair
 

Texto escolhido nas nossa seletiva, lembramos que estamos com seletiva aberta até dia 16  confira:
http://bit.ly/gzUan4

1 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Há um bloco de mascarados
triste
que me atravessa.

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