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sábado, 17 de julho de 2010

LARISSA SABE TUDO - Gilberto Carlos

O marido estava em cima da hora de ir para o trabalho e não conseguia encontrar a bendita chave do carro. Desesperado, recorreu à mulher que estava entretida em seus afazeres domésticos.
_ Benhê! Você viu a chave do carro? – berrou ele da sala para a mulher que estava na cozinha.
Ela foi atendê-lo na sala, enxugando as mãos no avental.
_ Ontem a noite eu vi essa chave em cima do criado mudo do nosso quarto.
_ Também tenho certeza que botei essa chave lá, mas hoje eu vou procurar e cadê?
_ com a graça de Deus nós vamos encontrar. Você procurou no chão? Ela pode ter caído embaixo da cama.
_ Procurei em tudo que é lugar e nada.
_ Vou procurar de novo. Mulher tem um olho mais atento.
Ela revirou o quarto e nem sinal da chave.
_ São Longuinho, São Longuinho, se eu achar essa chave eu dou três pulinhos.
_ E aí, benhê, encontrou?
_ Ainda não. Mas eu vou achar logo, logo.
_ Por que cê tem essa certeza?
_ Já fiz promessa pra São Longuinho e ele nunca me deixa na mão.
_ Lá vem você com essas bobagens
_ Bobagem não. Só porque você é ateu convicto, não precisa abusar da minha fé.
_ Não tô abusando. Só acho que seus santos tem coisas muito mais importantes pra fazer do que procurar uma chave perdida.
_ Isso é o que você pensa.
Meia hora depois ainda estavam envolvidas nessa procura.
_ Por que você não vai pro trabalho de ônibus? – perguntou ela.
_ Nem pensar. Meus colegas já pegam muito no meu pé, se eu andar de ônibus, então...
_ Só hoje, até a gente encontrar essa chave.
_ Hipótese descartada.
_ Você já ouviu falar nos duendes, que escondem as coisas só pra matar a gente de raiva.
_ Lá vem você de novo com essas histórias. Nem a Larissa que tem 5 anos, acredita mais em duende. Mas sabe de quem é a culpa? Da televisão. No meu tempo não tinha televisão por isso eu fiquei acreditando em papai noel até os 15 anos. Quando descobri que ele não existia, chorei o dia inteiro.
_ É isso!
_ Isso o quê?
_ A solução do nosso problema é a Larissa.
_ Você acha que ela perdeu essa chave?
_ Não diria tanto, mas ela deve saber de alguma coisa.
A suspeita foi trazida para a sala e interrogada pelos dois.
_ Larissa, por acaso você não teria visto a chave do carro do papai? Ela é mais ou menos desse tamanho. – disse ele mostrando o tamanho da chave.
_ Não vi nada.
_ Você tem certeza? De vez em quando você ficava brincando com ela. Será que você não esqueceu em algum lugar?
_ Já falei que não, papai.
_ Larissa, isso não é brincadeira. O papai precisa ir trabalhar mas sem a chave não tem jeito.
_ Se o senhor quiser, pode ir com a minha bicicletinha, ela tem rodinha, não tem perigo de cair.
_ Eu to falando sério.
_ Eu também.
_ Se você tiver perdido, pode dizer que eu não vou raiar com você. Eu juro.
_ Quantas vezes vou ter que dizer? Parece criança que não ouve o que a gente fala. – respondeu ela com ar de superioridade.
_ Olha quem fala, nossa moça.
_ Posso não ser uma moça, mas não ficou nessa encheção.
_ Ah, não? E quando você quis passar as férias na casa de sua avó? Deu birra até nós deixarmos.
_ Só quando é do meu interesse.
_ Se você tivesse visto, ia ganhar um sorvete deste tamanho.
_ Não adianta fazer figuinha.
_ Tem certeza que não viu?
Larissa ficou calada.
_Papai é um mentiroso. – disse Larissa.
_ Por que mentiroso, filha?
_ Prometeu me levar no shopping hoje e agora quer ir trabalhar.
_ Não posso faltar com a minha obrigação na empresa.
_ E com a sua obrigação de pai, pode? Só porque eu sou criança fica me prometendo coisas impossíveis.
_ Desculpa filha, juro que não faço mais isso.
_ Quando eu for maior, quero morar sozinha, ser independente. E não acreditar mais na promessa de ninguém.
_ Chega, não precisa passar mais sabão em mim.
_ Quando eu tinha 3 anos prometeu me levar no programa da Xuxa, mesmo sabendo que isso era impossível.
_ Impossível por quê?
 _ Por causa dos gastos e da distância.
_ Eu ainda te levo lá. Eu prometo.
_ Não prometa o que não pode cumprir.
O pai saiu cabisbaixo:
_ Não quer mais a chave?
_ Não. Eu vou de ônibus.
_ Aqui a chave seu bobo, - disse ela tirando a chave do bolsinho da blusa – escondi porque não queria que o senhor fosse trabalhar, mas já que vai de qualquer jeito.
Ele a pegou nos braços e fez mais uma promessa?
_ Eu juro que no final de semana te levo no shopping e no ano que vem te levo no programa da Xuxa.
_ Ah, papai, o senhor não muda nunca e é por isso que eu te amo tanto.

Gilberto Carlos
Pseudo crítico de cinema e escritor

2 comentários:

Paulo Meucci disse...

own, que bunitinhu ^^

Karla Hack disse...

Que fofura!!
E olha que a criançada adora fazer destas coisas meigas mesmo...
;D

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